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Mergulhar [To dive]
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205x135cm, 2024


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Ventania Poesia [Gale Poetry]
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Em Busca [In Search]
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Formigueiro nos Pés [Tingling Feet]
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Fumo Baldio [Stray Smoke]
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Cãibras nas Pernas [Leg Cramps]
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Percurso Paixão [Passion Path]
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Atravessar [Crossing]
Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror
205x135cm, 2024


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Embate [Clash]
Técnica mista s/tela | Mixed media on canvas
202x160cm, 2024


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Fandango Flamenco
Técnica mista s/tela | Mixed media on canvas
Som/sound: The Cerqueira & Delmont Trio
Mauro Cerqueira, Stephan Dillemuth: Gravado / recorded at Kunsthalle Freeport, Porto, 2023
Flute, Harpsichord, Guitar - Mauro Cerqueira
Claps, Snoring, Heels - Werner Von Delmont
Vocals - Orfeu Cerqueira
202x160cm, 2024


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Sorriso Dourado [Golden Smile]
Técnica mista s/tela | Mixed media on canvas
202x160cm, 2020-2022


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Palavra Danificada [Damage Word]
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202x160cm, 2020-2022


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Mega Tenso
Técnica mista s/tela | Mixed media on canvas
202x160cm, 2023


Mauro Cerqueira Mauro Cerqueira Mauro Cerqueira Mauro Cerqueira Mauro Cerqueira Mauro Cerqueira

CIAJG, Guimarães, 2024

Curador: João Terras


Nota de Leitura

Três ensaios em português
seguidos da tradução em inglês.

  • 1º Ensaio Ensaio para Canções para um Burro Morto
    Autor: João Terras
  • 2º Ensaio Maurophilia
    Autor: Pedro G. Romero
  • 3º Ensaio Mauro Cerqueira: elegias de cera e alcatrão
    Autor: Pedro de Llano Neira

Reading Note

Three essays in Portuguese
followed by their English translation.

  • 1st Essay Essay for Songs for a Dead Donkey
    Author: João Terras
  • 2nd Essay Maurophilia
    Author: Pedro G. Romero
  • 3rd Essay Mauro Cerqueira: elegies of wax and tar
    Author: Pedro de Llano Neira


ENSAIO PARA CANÇÕES PARA UM BURRO MORTO.

Canções para um burro morto é a primeira exposição monográfica do artista Mauro Cerqueira num museu em Portugal. Tem como eixo central os últimos trabalhos do artista resultado de duas viagens consecutivas a Marrocos. Como título, é uma alegoria que une as duas viagens e por reflexo espelha a prática e a condição em que o artista se coloca, a de produzir narrativas a partir do anónimo.

É uma exposição pensada enquanto “linearidade boicoitada”, ou seja, toma estas viagens como fio condutor mas interceptas com desvios, outros trabalhos do artista, que desaceleram e desdobram o seu sentido. A cartografia centra-se na poesia, na condição da viagem e na deriva, enquanto territórios fundamentais para interpor outras leituras da história.

Ao nos aproximar da deambulação por estes territórios magrebinos, tanto com o mundo árabe, como com figuras transgressoras de poetas como Jean Genet ou Muhammad Choukri, Mauro Cerqueira desvia as narrativas da razão e da ordem ocidentais, amplificando um encontro com outras geografias, outros territórios, outras normas.

Uma parte importante do investimento poético de Mauro Cerqueira está na revelação destas histórias paralelas, marginais, acontecimentos mitificados, rumores, especulações, histórias das histórias, por escrever e por definir. O seu trabalho recorre a múltiplas formas e formatos, desenho, escultura, pintura e vídeo, os que forem possíveis para que essas revelações se deem. Simultaneamente o artista coloca-se numa condição intermediária (daquele que liga) com o outro. Um outro que se torna uma extensão e um espelho. Pode ser um outro artista, um vizinho, um animal, um convidado, um outro gravado à distância. Pode ser (e é quase sempre) a literatura.

Canções para um burro morto grava imagens, telas, espelhos, sons e canções. Todas são metáfora da figura omnipresente e estilhaçada do artista e deste animal. Nomeia o anónimo, indo ao encontro dos inomináveis.

I

O SUOR DO DESERTO

Bom dia, ó seres noturnos,
Bom dia, ó seres diurnos,
Bom dia, Tânger, plantada numa época mercurial.
Aqui estou de regresso, para sondar, qual caminheiro adormecido, pelas ruelas e memórias,
pelas linhas com que tracei a minha vivência passada-presente…
palavras, fantasmagóricas e cicatrizes que a fala não consegue abarcar.1

Em O suor do deserto (2021) estámos com a câmara de mão. A lente é a de uma Canon HV30/2008. Instável e em movimentos trépidos durante todo o filme ouvimos o respirar de quem filma.

A primeira imagem mostra-nos o mercado de animais de Marmoucha, no Médio Atlas em Marrocos. É um território a céu aberto. A imagem sublime daqueles animais diante do poema Le Condamné à Mort , do escritor francês Jean Genet (1910 – 1986), preenche o nosso olhar enquanto as naturezas mortas se vão compondo. O gado a ser arrastado, um grupo de ovelhas resignadas pousam a cabeça nas costas uma das outras, os galos são os únicos que parecem fugir.

A figura de Babi Badalov (é Babi quem lê o poema de Genet durante todo o filme) é o personagem central desta viagem, é o corpo da câmara no território, é a personagem dos afetos, das buscas. Lê o poema a partir do livro Treasures of the night – The Collected Poems of Jean Genet . Depois do mercado, seguem-se as várias estradas, esplanadas de café, chá e “kif”, as pausas de Babi a ler e no telemóvel, as ligações de carro e rádio entre Marmoucha, Rio Lucos, em Alcácer Quibir, Larache, Tânger, Tétouan e Fez. Este alinhamento é a sequência concreta da viagem. Segue a noite e o dia, as esquinas apertadas das ruas marroquinas.

O filme produz dois encontros. Com Jean Genet no cemitério espanhol em Larache, e com Muhammad Chukri (1935-2003) em Tânger. Um encontro com dois mortos e com as suas sepulturas. Babi, senta-se na campa de Genet e lê-lhe Le Condamnè à Mort, do poeta maldito. Apenas uma sepultura branca, um chão de terra murado, de frente para o Atlântico . Deixa cair da sua garrafa a água na terra árida onde parece nascer uma flor. Conversa com uma pessoa que diz ter conhecido o poeta, encontra a cuidadora do cemitério que lhe mostra a última casa de Genet em Larache. Vive-se sempre entre os factos reais e as ficções a partir das conversas, e indaga-se por que Genet terá ficado neste cemitério, e se terá sido essa a sua casa com o último amante. Em Tânger, Babi limpa as ervas daninhas da campa de Choukri, e volta à poesia de Genet.

Não cantes mais, garoto, deixa em paz essa
canção de apache! Sê menina de garganta
pura e radiosa ou, se nada temes,
o menino musical que em mim morreu muito antes do
machado me cortar. (2)

O filme transita das ruas de Fez para as ruas da Gare du Nord, e para o atelier de Babi no bairro de Barbès- Rochechouart em Paris. No final estamos no interior do Jack 's Hotel, onde Genet morreria. Babi come, mostra os cadernos com os seus desenhos gráficos, e no ecrã do seu telemóvel é noticiada a invasão da Ucrânia pela Rússia. Na janela do quarto do hotel a vista dá para as traseiras do prédio. O parapeito reveste-se de agulhas que afastam os pombos. Babi termina: “Sad, so sad”.

Durante todo o filme somos conduzidos numa deriva por Marrocos. Ao colocar-nos nesse lugar insone da deambulação, Mauro Cerqueira toma o território a partir de um grau zero que nos despe de qualquer pré-imagem, de qualquer ideologia, ou história instituída. Desta forma, não se trata de produzir um discurso efetivo sobre o Norte de África no seu todo, ou sobre Marrocos no seu caso específico, ou ainda sobre qualquer uma das figuras, poetas ou animais, que são evocados. O delírio dessa insónia é a condição vertiginosa que nos ameaça.

Vemos O suor do deserto (2021) deitados numa rampa, aliás uma meia rampa que, como uma piscina vazia se torna num halfpipe para skates. Se recordarmos os primeiros trabalhos de Mauro Cerqueira, lembraremos o skater (o stalker?). Feitos por volta de 2005 e que se estendem até 2019, esses gestos iniciais observam as camadas efémeras do espaço urbano, produzem velocidade e risco sobre os corpos e uma linguagem codificada própria. A história do skate como uma história da arte.

Na parte de trás da rampa encontramos o filme Porto Morto (2010), um dos três trabalhos que são como “desvios” à exposição. Encaixotados em três ecrãs de caixa preta, Porto Morto, Até ao Osso (2010) e Morgue (2007), são contrapontos fora de cena, que costuram uma narrativa mais distendida para a exposição. Porto Morto termina com Até ao Osso. Ainda que o fim de um possa ser o início do outro, são filmes “xifópagos”.

A figura de Serin, amigo de Mauro Cerqueira, a andar e saltar de skate no curto espaço interior de uma casa vizinha ao seu atelier, ocupa as gravações. É da janela deste espaço que observamos os fundos da obra do Hotel Intercontinental a partir do largo dos Loios. Nas fundações do estaleiro de obra do hotel vemos uma pessoa a escavar os restos de um antigo cemitério, ossos e crânios para o interior de um saco da Fnac. É o fim de Porto Morto ou o início de Até ao Osso que grava todo este momento. Nestas imagens voltamos novamente a Genet:

With the treasures of the night buried under your feet
Along paths of live charcoal, go lithely. Peace is with you.
Among nettles, furze, blackthorns, forests, your steps
Lay down measurements of shadows.
And each foot, each step of jasmine
Buries me under in a porcelain grave.
You darken the world. (7)

II

CANÇÕES PARA UM BURRO MORTO

Depois da viagem de 2021 com Babi Badalov, Mauro Cerqueira volta a Marrocos, desta vez com o objetivo de filmar um grupo de músicos nómadas amazigh nas montanhas do Médio Atlas, fim que haveria de sair fracassado. A viagem é feita ao lado de Nathaniel Kochan, amigo e artista plástico inglês indo ao encontro de Ahmed Tassefsaft natural de Marmoucha. Dela resultam um filme fragmentado e canções gravadas no interior das montanhas. Estes “estilhaços” aparecem na exposição em vários pequenos ecrãs, num roteiro sem direção, e num vinil estampado.

Contam-se dez as canções que agora se estampam num vinil. São o hipotético encontro falhado com os músicos-pastores nómadas que, segundo nos conta, adoeceram aquando da sua chegada. As canções, deixando de documentar, passam a ficcionar.

As canções, cantos ou melodias, sons, surgem da improvisação de Nat, Ahmed e Mauro. Ahmed canta, chama e declama os seus poemas, que produzem figurações sobre quem os ouve. Figuram lugares, paisagens; são a deriva e a locomoção. Pouco sabemos do local específico onde foram gravadas. Sabemos que Ahmed tinha uma guitarra velha com apenas três cordas, o gravador foi trazido na mala por Nate. Os ritmos e melodias surgem de sintetizadores, teclados, vários instrumentos de sopro produzindo ruídos repetitivos, ácidos, estridentes, característicos de um imaginário da música nómada dos povos berberes.

Ao contrário de O suor do deserto, as gravações desta viagem estão a cru, num conjunto de imagens depositárias da repetição. Assistimos à mesma estrada numa constante ida e volta na espuma dos dias. Ahmed mostra os vários pontos da cidade, os cafés e as mesquitas, a sua casa, o encontro com amigos no barbeiro. Ahmed conta-nos histórias, canta, caminha pelas ruas de Marmoucha e mostra-nos o seu interior.

Ao longo da viagem, um burro morto na berma da estrada, é insistentemente filmado. Nada se conta ou faz sobre o corpo que se torna numa presença catalizadora.

Animal essencial na cultura marroquina e no mundo árabe de forma extensiva, o burro é parte integrante da paisagem destes territórios e da condição economica e social do trabalho das comunidades. A par de Babi em Suor do deserto (2021), ou de Ahmed neste segundo filme, apenas os animais, gatos, cães e burros, tomam maior presença sobre o olhar de Mauro Cerqueira. O animal ditado a cumprir a vida do dono(s), carrega e transporta e é transporte e torna-se indissociavel do cumprimento da vida em quase todos os seus momentos.

Sem tomar lugar protagonista da ação nestes filmes de Mauro Cerqueira, o seu anonimato confere uma dimensão de contra-narrativa, são a alegória sobre a história central (história central essa que se vai diluindo e boicotando em prol da deriva e dos seus acontecimentos).

Enquanto procuramos um sentido para a importancia do encontro com este animal e da sua repitação constante nas gravações, as dez canções atuam como réquiem para aquele que se putrefaz ao relento na berma da estrada, enquanto se torna alimento, cobertura de outros animais, paisagem no silêncio dos dias. A alegoria deste corpo morto torna-se na omnipresença da exposição.

Na alegoria lembra-nos Au hasard Balthazar (1974) filme de Robert Bresson. E, sendo um espelho recorda-nos Un condamné à mort s’est échappé (1956) e Pickpocket (1959) também filmados pelo realizador francês. E finalmente, sendo uma questão de linguagem, não deixa de ser curioso que, venha a ser Peregrinação Exemplar a tradução adoptada para a lingua portuguesa do filme Au Hasar Balthazar. Babi, Genet, Choukri, Bresson e o burro desenham-se no interior destas relações sem nunca ser um ou outro.

III

MORGUE

As três figuras, Mauro, Naten e Ahmed, improvisando coletivamente, encontra semelhante intensidade no filme Morgue, editado em 2007 é um dos primeiros filmes trabalhados por Mauro Cerqueira. Editado em 2007, assistimos a oito jovens num ensaio técnico numa garagem no Salgueiral, uma zona periférica em Guimarães algures nos finais da decada de 1990. “Morgue” é o título do filme e dá o nome à banda de hardcore a que Mauro pertenceu na adolescencia. O que vemos são Mauro e os amigos com catorze, quinze anos de idade. O ensaio parece tomado pelo improviso e pela busca de novas canções. Cerca de 30 minutos sem interrupção de um lugar de procura caótica.

Num gesto cut-up casuístico, como era prática comum com as fitas de VHS, a cassete foi utilizada para gravar outro filme. Mauro Cerqueira aproveita essa falha para produzir o seu “fim de filme”, onde apresenta os seus personagens que são simultaneamente os elementos da banda. O artista manipula esse “erro”, intercalando um filme erótico transmitido num dos canais televisivos português com os elementos da banda.

Esse excerto do filme erótico narra a chegada de uma mulher a Paris. Nas legendas distorcidas de uma má gravação ainda se consegue ler a tradução. A mulher fala-nos do sentido da viagem, entre amor e sedução.

IV

ESPELHO

O espelho no trabalho de Mauro Cerqueira adota tantas posições quanto as dos corpos nas paisagens. É múltiplo e estilhaçado. Ecrãs onde o espectador se introduz. Espelho, na raiz da palavra “especular”, é um lugar do cinema, mas também da pintura. Na pintura, porém, o nomadismo dá lugar à clausura. As pinturas negras feitas a partir da massa de alcatrão e os espelhos a partir da cera das velas estão dentro do campo da abstração.

Os espelhos e telas são trabalhos feitos na horizontal, sentido contrário à verticalidade com que os vemos. No momento da sua produção, as telas e espelhos são mesas no atelier, resultam todas de uma matéria quente, de uma matéria transformada, derretida. Seja a massa de betume negra, seja a cera das velas, a pintura é exposta a uma condição de embate com a necessidade veloz de trabalhar com o material ainda quente. O desenho tem um tempo muito curto até que a massa e a cera se solidifiquem. Tornam-se, de igual modo, imagens que provém de um sentido de deriva, onde o planeamento encontra pouco espaço. Nessas telas existem objetos colados que são colocados no início deste processo.

Os espelhos e as telas em betume já existiam antes das viagens a Marrocos, mas estas produziram alterações significativas. As tridimensionalidades ganham mais força do que nos trabalhos anteriores, são agora obras totais de pintura e escultura, e os desenhos geométricos dos espelhos perdem a força para dar lugar a um gesto fluido e líquido da sua superfície. Temos mais espelho e menos a sua anulação.

As referências a outros artistas no universo de Mauro Cerqueira são importantes, mas não esclarecem o seu sentido. Existe o niilismo de Steven Parrino, a ação de Robert Rauschenberg com as suas assemblagens e objetos, ou as suas Glossy Black Paintings, e o mundo conceptual de Bruce Nauman. Mas também existe, e essa é uma dimensão significativa na vida e obra de Mauro Cerqueira, a afinidade com as diretrizes da Internacional Situacionista (IS) e o universo dos primeiros surrealistas. É na condição nómada e instável que Mauro Cerqueira torna os objetos que produz em instrumentos de transformação do arranjo social instituído. A abstração da sua pintura, e vídeos, pode ser lida como um realismo.

Sendo possível ou não enclausurar, estancar a espessura das cidades em imagens, certo é que este congelamento, estas imagens freezing, não deixam de ser as massas de betume dos telhados por arranjar, a cera à luz das velas na Rua dos Caldeireiros, os objetos acumulados nas ruínas de Tetouan ou a noite espessa de Fez.

V

INÍCIO E FIM

Engoliu a espinha e foi operado para o poderem enforcar no dia seguinte (2010) é um prelúdio da presença do artista no museu, e aparece isoladamente no interior da coleção. O seu título é retirado do romance Os Sonâmbulos (1930), do escritor austríaco Hermann Broch (1886-1951), e assume-se como uma obra agregadora onde todas as relações da exposição e do trabalho de Mauro Cerqueira gravitam.

A placa branca que encontramos noutras imagens do seu trabalho remete-nos para um resto de telhado, parede. Uma ruína. Enquanto escultura é o desenho primário, a construção elementar da primeira rampa. Três tijolos e uma placa curvada pela gravidade refletem o imediatismo da execução, muito característico dos seus primeiros trabalhos. O pneu travado por uma faca produz uma imagem estanque, ao mesmo tempo que é uma imagem dinâmica e performática, condensação do seu movimento impedido. Conduz-nos para outros trabalhos da mesma maneira que permanece latente a ideia da viagem.

Os trabalhos de Mauro Cerqueira nunca atuam de forma isolada, existem enquanto elementos de um cenário maior e atemporal ao espaço da galeria de exposição. São sempre imagens e objetos da própria realidade, são ficções construídas a partir e dentro da própria vida, é uma obra conceptual e uma escultura do real. Ainda que aquela rampa seja a ruína, a demolição, o resto, a destruição, as falências, as tensões e facadas é imagem do real e escultura de ação, simultaneamente. O pneu de carro, a descer, travado com a faca de metal sobre a placa branca são a primeira e a última imagem da exposição.

É o absurdo.

Texto de João Terras



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Maurofilia

Notas para Canciones a un burro muerto de Mauro Cerqueira, curadoria de João Terras no Centro Internacional das Artes José de Guimarães

I. Américo Castro afirmava que, na América, chamam popular a uma parte da herança ibérica, que não era outra coisa senão resquícios das culturas árabes e judaicas que nos habitaram. O árabe e o judaico, o muçulmano e o judaico, dizem-nos respeito porque também fazem parte de nós. Os vários séculos que estes povos passaram no solo ibérico, a rápida conversão da população hispano-romana ao islamismo ou a proliferação de Sefarad não são apenas notícias históricas, pois a continuidade cultural com o norte de África e o Mediterrâneo aproxima-nos destas formas sociais e culturais.

É evidente que, quando a hegemonia cristã chegou, o árabe e o judeu foram depositados nas classes populares, nas classes baixas. Os famosos cristãos-novos não só construíram a grande cultura europeia - Montaigne ou Spinoza - como também, resistindo a partir de baixo, sem reconhecimento político dos seus direitos, são a grande fonte da nossa cultura popular. Porque é que a academia faz de Séneca nosso e esquece Averróis ou Maimónides? Contudo, Edward Said, na sua obra-prima Orientalismo, despreza o facto de as classes populares, as castas baixas, utilizarem este legado "exótico" para legitimar os seus modos de vida alternativos face às culturas europeias que nos colonizavam. Mas foi assim que conseguiram salvar-se do poder e das classes dominantes dos seus próprios países, do nosso próprio país. Este paradoxo singular serviu para que os usos e costumes que nos foram deixados pelas culturas norte-africana, árabe, semita, muçulmana e hebraica sobrevivessem ao longo do tempo. As classes populares reclamaram-nos, por exemplo, perante o olhar exótico dos colonizadores ingleses ou franceses, os da Europa iluminada, e reivindicaram-nos como os seus próprios modos de vida contra a burguesia local que os explorava, mesmo contra a aristocracia peralvilha que queria modificar os seus usos do tempo de trabalho ou das festividades.

II. Pensemos na maurofilia. As imagens do mouro, fruto da dominação ou da emancipação, são relacionadas por aquilo que as molda. O que não é político nessas imagens é o igual, um tipo de imaginário que podemos chamar de popular. A valorização do político muda com o tempo, os ventos da história e as condições materiais de produção. Mas há sempre um resto, e esse resto é o popular. É sempre ridículo chamar orientalista a um artista de Granada por pintar a Alhambra. Compreende-se que um inglês ou um francês tenha prazer no exótico (sic), mas aqui estamos a lidar com algo, esse árabe ou judeu difuso, que nos diz respeito. A Maurofilia é também um reconhecimento histórico. Sim, "somos mouros", como se cantava na Peña Wagneriana.

O que nos é conforme. Os bazares árabes, os mercados do Norte de África, os restaurantes libaneses, os shawarmas turcos, as lojas paquistanesas, enfim, seria ridículo chamar "orientalismo" a todas estas culturas de imigração. Se há um sítio onde o capitalismo tem um rosto humano, é aqui. A loja e o pai ou o mercado desmantelam o patriarcado. Se o capitalismo tem as suas origens nos mercados dos portos mediterrânicos, deve também ter o seu fim aí. As análises de Verónica Gago em La razón neoliberal. Economías barrocas y pragmática popular [A razão neoliberal. Economias barrocas e pragmática popular] mostram esses limites e poderes à beira de o popular se tornar político. A partir de baixo, é possível uma economia plebeia que, com o popular, se confronta com a grande economia das empresas e dos Estados. A caridade, qualidade especial das nossas práticas católicas, deve certamente quase tudo à herança muçulmana.

Como é possível que o Islão, tradicionalmente considerado antigo, tenha sido o primeiro a construir o imaginário de abundância que prevalece nos nossos centros comerciais modernos? A preguiçosa crítica económica capitalista e socialista continua a não compreender que a diferença reside na separação absoluta entre economia e modo de vida.

O que os imaginários populares atestam é que onde há acumulação não há crédito. O capitalismo financeiro é, acima de tudo, uma abstração da abundância e da sua administração fantasmática. No pensamento selvagem, a mercadoria é tocada. "Aqui confia-se". De facto, "financeiro" vem de "fé", "fides", "pistis". O que o Islão protege é uma religião contra outra religião. O capitalismo funciona como uma religião. É uma religião.

III. A tensão entre o imaginário popular dos migrantes magrebinos, por exemplo, e os sistemas de repressão e cooptação dos países que os acolhem é inédita numa economia dita de mercado. O trabalho, transformado em mercadoria, é explorado pelas sociedades dominantes dos países de acolhimento, limitando e minando os direitos dos que chegam. Chamamos popular a este excedente de imaginação, que, como uma espécie de resistência, surge do confronto entre as próprias formas de fazer as coisas que a lei torna díspares. E este imaginário, sim, assume também a forma de mercadoria. A explosão de guloseimas visuais nas lojas chinesas ou paquistanesas é, sim, sustentada por esta violência capitalista.

O árabe, o muçulmano – chamemos assim a um legado que é, obviamente, muito mais complexo - já não pode ser rejeitado com a lógica do amigo-inimigo. O árabe é definitivamente um amigo. A filosofia europeia não pode ser pensada sem o legado infinito de Averróis. Mesmo que pareça contraditório, vindo de uma cultura anicónica, a nossa conceção dialética das imagens não poderia ser compreendida sem a conceção filosófica de Averróis sobre o que são as imagens. Mas também o amor, a conceção europeia do amor cortês, por exemplo, não seria concebível sem a mística árabe, sem a literatura sufi. Estas conceções do dinheiro, da arte ou do amor estão enredadas nos rituais populares de uma forma que ultrapassa frequentemente a nossa conceção europeia patriarcal e bem-pensante. Abrir a possibilidade deste intelecto, contradizendo agora Averróis, situando esta imaginação na terra e não no céu.

IV. É curiosa, a palavra estereótipo, que etimologicamente significa "diversificação" - essa raiz, "estéreo" - e que se transformou em "caricatura", ou seja, "fixação pejorativa de uma coisa". Na construção dos estereótipos, o papel dos meios de comunicação é fundamental. De facto, é a chapa de impressão que dá a ideia de fixação. Séries como Los españoles pintados por sí mismos [Os espanhóis retratados por eles próprios]- antes conhecíamos os franceses ou os ingleses pintados por eles mesmos - tornam-se a grande fábrica de tipos e estereótipos. Nestas representações o popular infiltra-se, em muitos aspetos é construído de forma espúria. O mesmo acontece com os retratos exóticos do mouro. O popular é uma espécie de resíduo, uma espécie de ruído que altera os meios hegemónicos.

A ideia de "cruzada", por exemplo. Desde a construção medieval do outro como infiel, a violência tem desempenhado um papel importante na formação do popular. De muitas formas, os vencidos constroem a sua imaginação residual do mundo na forma a que chamamos popular. Assim, também as guerras culturais desempenham um papel importante na formação do popular, embora entre grupos politicamente hegemónicos. A contradição não isenta o representado de eficácia. Pensemos na construção estereotipada da imagem do mouro pela esquerda durante a nossa guerra civil, quando algumas tropas indígenas marroquinas lutaram com os militares golpistas do general africanista Francisco Franco. Ninguém pode pensar que os imaginários surgem sem fricções. Quando o imaginário emerge, é claro que entra no debate político.

Ou a figura do "adormecido", outro exemplo. A figuração popular é também uma abstração. Há climas, atmosferas, arabescos, que são construídos como paisagens no imaginário popular. O terrorista xiita, o jihadista, as células adormecidas, as hostes do Isis, do Estado Islâmico, de todos estes exércitos niilistas, tal como o terrorismo anarquista do final do século XIX, constroem um imaginário popular onde tomam o lugar dos monstros mais tradicionais, dos dragões e dos lobos ferozes. A fábula - algo impossível de entender do ponto de vista do politicamente correto - é sempre uma alegoria do trauma, da tragédia. A possibilidade de falar do que não pode ser falado, a correção popular do místico.

Por outras palavras, "os mouros" somos nós. De facto, somos e continuamos a ser mouros. Tudo o que tem a ver com as múltiplas culturas a que chamamos árabes ou muçulmanas é algo que nos afeta essencialmente, nos situa, pertence ao que somos, ao local onde vivemos. A cultura popular, do folclore aos estereótipos pop do merchandising, é um contínuo reavivar deste imaginário do mouro. O olhar do turista, por exemplo, diz-nos continuamente quem somos e onde estamos. Esta pornografia do olhar do “estranja” desarma-nos, irrita-nos pelo que contém de verdade. Não é apenas o peso da história e da geografia, mas também o que é partilhado. Os pobres entendem melhor os pobres. Como diziam os Agustín Parejo School: "somos mouros, somos negros".

V. Quando defendemos o conhecimento do mundo árabe e muçulmano, tal como ele se propaga, na sua diversidade, pelo mundo, estamos a tentar conhecer-nos a nós próprios. Não se trata da ideia que as nossas instituições atlânticas, europeias ou norte-americanas fazem do que significa o árabe, o mouro, o muçulmano, mas da forma como eles se entendem, como se enunciam, como se afirmam e se negam, que dialética os atravessa. O que aprendemos com Catherine David e as suas Representações Árabes Contemporâneas prende-se com encontrar essa outra voz e não apenas o reflexo nos nossos espelhos académicos, históricos, científicos. Para compreender o que é popular aqui, no sul da Península Ibérica, é preciso saber como funciona no Egito, no Líbano, no Iraque, no Irão. Os nossos vizinhos marroquinos, sarauitas, argelinos, berberes, mauritanos, mauritanianos ou tunisinos contribuem culturalmente para a nossa vida, partilham connosco uma miríade de constelações de imaginário.

Seria necessário pensar, por exemplo, como é que elas representam o ciclo da exploração colonial, essas resistências a que chamamos populares, subalternas. Não podemos continuar a pensar, na era da fotografia, do cinema, do audiovisual - porque é que as telenovelas turcas triunfam? - e das imagens nas redes, que os árabes, que os muçulmanos, são uma cultura anicónica, contra as imagens. Por vezes, quer-se transformar os árabes em culturas hápticas ou sonoras, como se não houvesse sempre uma continuidade entre os sentidos, como se fosse possível tocar e ouvir sem ver. Além disso, temos de repensar o estatuto das imagens à luz do seu funcionamento nessas culturas, nesses mundos, do ruído que as imagens aí produzem, que produzem nas nossas próprias imagens. Do mesmo modo que no trabalho mediado - gravura, fotografia, cinematografia, etc. - o popular aparece como ruído. Chamemos então ruído ao esforço do traço, à espessura das imagens, que é o que produz aqui, violando linhas e rabiscos, aquilo a que chamamos o popular. Essa agressividade das linhas, claro, é filha da reprodução técnica, é uma resposta, uma resposta contra a produção natural de imagens. Reprodução versus produção, poderíamos dizer. E é por isso que o popular é muitas vezes o resultado de fricções, de fricções violentas no campo da representação.

Não é por acaso que o conflito israelo-árabe, o que mais sangra nesta parte do mundo depois da Segunda Guerra Mundial, é também uma guerra civil entre as culturas judaica e muçulmana que nos encorajam, que nos empurram de baixo para cima. Desde a imposição territorial do Estado de Israel até aos recentes massacres em Gaza. Não podemos deixar de pensar nestes conflitos sem recordar a expulsão dos judeus dos reinos de Espanha e, antes disso, a conquista sangrenta dos vários reinos muçulmanos que constituíam a Península Ibérica. Quando falamos de guerra cultural, não é no sentido banal que hoje queremos dar a qualquer confronto ideológico, mas a um entendimento da cultura como cultura de guerra. Não há nenhum documento de cultura que não seja também um documento de barbárie. O popular, porém, como dissemos acima, como cultura dos vencidos, dos derrotados, como cultura de resistência das diferentes diásporas, deve saber de que lado ficar.

VI. Um último olhar sobre o "arabesco", outro lugar-comum. A violência do arabesco, como Alain Robbe-Grillet assinalou em O Ciúme. Toda a suavidade do espaço decorativo popular tem uma função escópica que muitas vezes nos recusamos a ver. Mas, em geral, o que o popular nos ensina - ao contrário da versão primitivista e ingénua com que é apresentado, ou seja, o popular domesticado - é esse olhar em arabesco, complexo, transversal, fora da norma, alheio à dialética da imagem, um olhar que se constrói pela surpresa. Quando Agustín García Calvo falava do popular como aquilo que está por baixo, falava também do emboscado, do agachado que de repente nos salta à vista e nos obriga a olhar.

As pinturas negras de Mauro Cerqueira são um arabesco. O que vemos, o que nos vê. São também autorretratos. Os espelhos, obviamente. Também as correntes. Também aquela espécie de alcatrão. Espelhos negros e arabescos. Não é uma piada. «Mauro» significa isso, escuro, negro, mouro. Do grego passou para o latim e daí designa as regiões que vão do Magrebe à Mauritânia. O que estes autorretratos enfrentam, o que eles nos enfrentam. São quadros negros, quadrados negros. Há Goya, há Malevich, estão ligados por meio de arabescos. Os brilhos são olhares. Mauro olhando e Mauro deixando-se olhar. Matéria comprimida. Puro preto, absorvente da luz. Não é preciso comprar, patentear, capitalizar um novo pigmento para conseguir o preto absoluto. A trama do retrato, do autorretrato mouro. Penso também em Juan de Pareja, o famoso quadro de Velázquez, o pintor mouro, o pintor negro, o escravo libertado. O preto da Caaba, a pedra meteorito. «Somos mouros, somos negros».

Ángel González García, historiador de arte espanhol, viu, muitos anos antes de os raios X o demonstrarem, o arabesco no Quadrado Negro de Malevich. Para González García — um mestre —, Malevich não estava a fazer mais do que citar as piadas de Alphonse Allais. «Dois negros brigam numa caverna à noite». Quando foi feita a radiografia do primeiro Quadrado Negro suprematista, apareceu a inscrição escrita em russo. Um arabesco. Então, mais patafísica do que teosofia. A dança retorcida do mouro que Aby Warburg identificou com o grotesco. Acontece que tudo isso se retorce no fundo do quadrado negro porque era isso, um autorretrato. Malevich quis levá-lo para o túmulo. A sua Caaba. O véu negro que cobria o verdadeiro retrato de Cristo na religião ortodoxa. Um espelho orientalista? Bem, certamente. O que os espelhos nos devolvem não é a nossa imagem, mas a história da nossa imagem. Capaz de folhagem, contorções vegetais, flora decorativa. O que nos constitui.

Não, o mouro não nos é estranho. Nós somos o mouro. A história de nações como Portugal ou Espanha foi feita contra o mouro, ocultando-o, cobrindo com cores o negro que nos constitui. O mouro é anterior até ao árabe. O mouro é uma continuidade africana. África começa nos Pirenéus. E assim, com um traço, tiraram- nos da história política europeia. O atraso finissecular, porque somos mouros. Não é ridículo? O que se cospe no espelho, nestes autorretratos, Mauro sobre mouro, mouro sobre Mauro. Preto sobre preto. Espelhos de tinta. Preto pela intensidade da escrita. Um palimpsesto. Tanta tinta escrita até que tudo fica preto. Escrita em arabesco. O que consegue olhar para dentro. Somos «mauros», estamos negros.

VII. Assim, trata-se de uma viagem ao passado. Quando Mauro Cerqueira e Babi Badalov – outra piada, Babi, nascido soviético, no Azerbaijão, russo, azeri, ortodoxo, muçulmano – viajam para Marrocos, não estão a viajar no espaço, mas no tempo. Mauro, em Canciones para un burro muerto, viaja sobretudo para o Portugal da sua infância. Todo o mundo que denota, que olha para lá, que retrata. O que come e o que ouve. Os sons da sua infância, de um Porto, de um Portugal que já não existe em Portugal. Um Portugal mouro que já não existe e que este filme retrata. Não é uma viagem ao sul, mas uma viagem aos seis anos. Quando Portugal tinha seis anos, quando Mauro tinha seis anos. Um Portugal mouro.

Pensemos na música. Nathaniel Mackey refere-o em Cante moro, a poética do flamenco de Federico García Lorca. A identificação de Lorca com o mouro, o judeu, o cigano, com todos os perseguidos. Todos aqueles que não têm representação política, que não a tinham. A sua desclassificação, é isso que opera com o flamenco, os cantores e os toureiros. Mauro Cerqueira não gosta do fado. Mauro Cerqueira teve de suportar a modernização do fado, a europeização do fado. Mas quando ouvimos os cantos de aljaima, os cantos de convite para a oração vindos da torre da mesquita, quando os guinauas cantam dentro do carro, ouvimos fado. O que Mauro procura são essas canções da infância que ainda não se chamavam fados. As pessoas que cantam. Diz Mackey. «O título Cante Moro remonta a uma gravação que saiu há vinte e cinco anos, uma gravação de Manitas de Plata, provavelmente o músico flamenco mais conhecido pelos ouvintes nos EUA naquela altura. Num momento durante uma das peças do álbum, Moritas Moras, após a abertura do canto de José Reyes, um membro do grupo diz: «Isso é cante moro» [canto mouro]. Chamar cante moro ao canto profundo evoca o domínio passado e a presença cultural contínua dos mouros em Espanha; reconhece as raízes híbridas e heterogéneas não só do cante jondo, mas da cultura espanhola em geral, da cultura, da poesia coletiva, em geral. Um cigano ao agir assim, como neste caso, alia-se às ordens dos marginalizados, reconhecendo a hibridização e a heterogeneidade para entrelaçar também os heterodoxos (cigano heterodoxo, mouro heterodoxo, Cante moro) que fala da presença e persistência daqueles que de outra forma seriam excluídos, expulsos.

Para que se entendam bem aqui, José Reyes e Manitas de Plata são os pais dos Gipsy King, os ciganos Reis. Nada de pureza, nada canónico, reis e príncipes de uma aristocracia da classe mais baixa e marginalizada. O brilho do ouro, o brilho das correntes. O polvo de Pericón de Cádiz, que percorria a praia da caleta e ao qual se colava nos bigodes tudo o que brilhava no fundo do mar. A mesma fascinação das meninas e dos meninos por tudo o que brilha. Estamos a falar de saudade. A infância que retorna não é um paraíso etnográfico, não é um paraíso orientalista, é o paraíso da infância. Isto é uma viagem ao passado. É a isso que me refiro quando digo, quando dizem: «somos mouros, somos negros!». O filme de Mauro e Badalov defende-se de qualquer transcendentalismo, de qualquer ilusionismo sufi, de qualquer abuso das nuvens de haxixe, precisamente por não ter medo da infância, dos jogos e brinquedos da infância.

Os versos do Alcorão aparecem inscritos em ouro, de forma pirosa, camp ou kitsch, dependendo do vitupério que preferirem. A crueza do burro morto - o burro podre de Buñuel, Dalí e Lorca -, cujas vísceras são arrancadas pelos cães, é uma cena em que percebemos, sentimos, que aquele que observa é uma criança. Ou melhor ainda, que quem observa é a nossa infância. Um olhar que não só nos leva ao passado, mas que vem do passado.

«Já morreu o burro da tia vinagre, já o levou Deus desta vida miserável, não posso acreditar, não posso acreditar». Esta era a canção infantil favorita de Federico García Lorca, como testemunha repetidamente a sua sobrinha Laura. Esse mesmo burro é o que encontram, perdido e abandonado, pelos caminhos do sul, Cerqueira e Babi. O Mouro e o Menino, cujas aventuras invadem o ecrã e se refletem nos espelhos dos quadros negros, no brilho iridescente das suas correntes, na massa alcatroada e resplandecente da pintura, amassada como se fosse terra.

O Mouro e o Menino. O menino e o mouro. Vamos, sentem-se aqui! Talvez se começássemos a ler estas notas agora que vimos a exposição, agora que vimos o filme, talvez agora as compreendêssemos melhor.

Pedro G. Romero
Barcelona-Sevilha
17 de abril de 2025






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Mauro Cerqueira: elegias de cera e alcatrão

As ruas do Porto sempre tiveram uma presença muito importante na obra de Mauro Cerqueira, quer direta, quer indiretamente. O livro Caldeireiros, publicado em 2012, evidenciou essa realidade. Mas a relação do artista com a cidade começou a mudar pouco tempo depois, devido às profundas mudanças que o Porto sofreu a partir de 2014, relacionadas com processos do setor imobiliário, do turismo e da política. Desde então, a cidade transformou-se radicalmente. De uma cidade em crise, passou a ser um destino cobiçado por investidores internacionais. Estas mudanças afetaram, deslocaram e prejudicaram as classes trabalhadoras, protagonistas dessa primeira fase do seu trabalho, que Caldeireiros documenta.

Esta publicação é a primeira monografia sobre a sua obra desde então e serve para dar a conhecer um corpo de trabalho recente. As mudanças são notáveis; de uma prática baseada em linguagens relacionadas com a performance e a instalação (2006-2014), passamos a uma prática em que se destaca o objeto autónomo (2016-2025), numa interpretação original e inovadora do suporte pictórico que comentaremos adiante. Na verdade, poder-se-ia argumentar que existe um paralelismo entre a diminuição do espaço público que a cidade sofreu neste período (tanto literal como simbólica) e a fuga em direção à pintura, como uma espécie de refúgio ou espaço autónomo onde se pode continuar a experimentar os mesmos temas e valores da primeira fase (materiais humildes, histórias populares e menores, a relação com a cidade), numa altura em que a liberdade de movimento e ação nas ruas do Porto, claramente encarnada em certas obras dos primeiros anos, foi limitada e restringida.

Naturalmente, estas mudanças não são tão drásticas e enfáticas como as formulei no parágrafo anterior. É verdade que na obra de Cerqueira se mantêm muitas constantes, mas por vezes este tipo de distinções ajuda a compreender a trajetória de um autor. Algumas dessas constantes são, por exemplo, a persistência da interdisciplinaridade (Cerqueira continua a trabalhar em múltiplos suportes ao mesmo tempo e é fascinante, nesse sentido, contemplar a forma como recentemente integrou a música), a relação crítica com o meio pictórico que se estabelece nestas novas séries, bem como o carácter narrativo que toda a sua obra possui e que aparece em todo o seu esplendor nos vídeos O suor da noite (2022) e Amazigh - Tecer estradas a caminhos (2025). Esta abordagem define um projeto artístico em que a abstração convive harmoniosamente com o discursivo. A exposição no CIAJG, com curadoria de João Terras, assenta nesta dialética e este texto centra-se particularmente nos elementos mais abstratos.

A série Espelhos teve início em 2016 e é composta por obras cujo denominador comum é o seu suporte, espelhos, por um lado, e a utilização do mesmo processo, por outro; uma versão da técnica da encáustica feita com cera de velas domésticas e pigmentos. Com exceção de algumas variações, todas as obras desta série têm uma dimensão padrão de 202 por 133 cm. Elas têm um precedente, que foi a série Jóias, realizada em 2013 e 2014, que consistia em pequenos espelhos de 20 por 20 cm com recortes de placas tipográficas de metal coladas na superfície. A encáustica é uma técnica conhecida desde a antiguidade, embora tenha sido revisitada por artistas contemporâneos, sendo um dos mais conhecidos Jasper Johns, na sua série Flag, na década de 1950. A encáustica caracteriza-se pela utilização da cera como aglutinante dos pigmentos, com efeitos densos e cremosos. Tradicionalmente era trabalhada com pincel ou espátula, mas Cerqueira prefere aplicá-la diretamente, gerando a imagem pela acumulação de gotas, como uma chuva quente, escura e persistente, no breve intervalo entre o estado líquido e o sólido do material, dando origem a superfícies bulbosas, inchadas e translúcidas (é verdade que os motivos destas séries são figuras esquemáticas, sinuosas e geométricas que se adaptam bem a este imediatismo e gestualidade). Uma espécie de pele tumescente, aderida ao vidro, que evoca corpos abusados, abjetos, fragmentários, que se confundem com o nosso próprio reflexo. Não foi por acaso que uma das primeiras obras feitas com cera, O nariz (2017), incorporou o molde de um nariz que lembra as ofertas votivas populares.

A série Espelhos foi apresentada pela primeira vez na exposição Dripping Wax, na galeria Heinrich Ehrhardt, em Madrid, em 2017. Outras apresentações tiveram lugar nas exposições Condo London (The Approach, Londres, 2018) e Desenganar (Galeria Nuno Centeno, Porto, 2019). Ao longo destas fases, Cerqueira experimentou diferentes tratamentos cromáticos e a introdução de objetos (capas de telemóvel), mas o esquematismo geral da imagem mantém-se e é potenciado nesta última exposição em Guimarães, onde a cor preta toma conta do plano. É na instalação das obras, iluminadas por projetores direcionais numa sala escura, que se encontra a principal novidade desta ocasião, gerando um ambiente introspetivo e cerimonial. Desta forma, os espelhos projetam o reflexo das obras no chão, em muitos casos compostas por motivos vegetais e decorativos que poderiam remeter-nos para as treliças da arquitetura islâmica.

O crítico espanhol Javier Hontoria escreveu o seguinte em 2016 sobre a relação entre estas obras aparentemente abstratas e o seu contexto: “São imagens poderosas e inquietantes de nós próprios. Olhar para as superfícies hirsutas das obras [...] parece doloroso, e os reflexos do espetador ficam enredados em densos pingos de cera colorida. [...] Se estas fontes de luz sugerem simultaneamente iluminação e luto, é este último que rege a atmosfera da exposição. [...] Trata-se de nós e do nosso papel nas forças entrópicas que consomem as nossas cidades”.

A segunda série apresentada em Canções para um burro morto é a das Pinturas negras. As primeiras obras foram criadas em 2019 e, em alguns aspetos - como a sua relação crítica com o meio pictórico e a abstração - parecem dar continuidade a preocupações que surgiram nas séries anteriores. São ligeiramente maiores, 202 por 160 centímetros, embora existam também outros formatos de menor e maior dimensão. O suporte, neste caso, é a tela, sobre a qual se aplica primeiro uma camada de alcatrão que serve de fundo a composições feitas com objetos resgatados do mercado negro ou do lixo. O processo é semelhante ao anterior porque o alcatrão também necessita de calor para derreter a pasta antes de a aplicar na tela. Esta superfície negra e opaca, o oposto dos reflexos galanteadores do espelho, é trabalhada por Cerqueira com gestos gráficos agressivos, como riscos, raspagens, incisões e arranhões que expõem o branco subjacente, como uma luz ténue que luta para romper a escuridão.

Desde a primeira apresentação destas obras em 2022, na galeria Nuno Centeno, as Pinturas negras têm vindo a incorporar vários objetos pendurados no suporte pictórico, como correntes, colares, bugigangas, ferragens, anéis, caixas de telefone, medalhas, canecas, clips, cadeados e até um rádio. Alguns deles representam um imaginário kitsch e humilde. Entre os primeiros trabalhos da série e os mais recentes, verifica-se que a presença e o destaque destes objetos ou figuras se acentuaram. Surgem pequenas estruturas metálicas (geralmente peças de mobiliário) que reforçam a tridimensionalidade, geram uma sensação de relevo e sublinham a impressão de que estes objetos não são autênticas pinturas, mas outro tipo de proposta híbrida. Paradoxalmente, essa sensação é questionada num segundo momento, quando percebemos que algumas das obras poderiam lembrar vagamente elementos figurativos ou representativos, como rostos com lágrimas (um motivo recorrente na obra de Cerqueira; sem ir mais longe, nas próprias gotas de cera na série de espelhos ou na metafórica chuva torrencial no vídeo Soltar a cadeia, de 2021), configurados com correntes metálicas e clipes de plástico. Estes jogos figurativos, quer provocados pelo tipo de objetos selecionados, quer pelas referências evocadas pelas imagens, atenuam a gravidade das obras e introduzem piscadelas de olho humorísticas.

A cera e o alcatrão são dois materiais comuns nas habitações dos bairros mais antigos e populares do centro do Porto, gentrificados na última década. A cera era usada para iluminar os interiores, nomeadamente das casas ocupadas pelos toxicodependentes, e o alcatrão para revestir e isolar os telhados. Um oferecia luz e o outro proteção contra as intempéries. A sua presença na última série de Mauro Cerqueira tem um carácter elegíaco, como representantes materiais de uma comunidade humana que desapareceu ou está em vias de desaparecer. Um lamento, ou talvez devêssemos usar outra palavra em desuso nas nossas sociedades pós-modernas; um luto, saturado de feridas e regado por lágrimas, que serve como memória de um tempo perdido, esquecido; cada vez menos nítido, espetral. Ou seja, relativamente abstrato, como as suas obras.

Por fim, a cera e o alcatrão são dois materiais e técnicas antiacadémicos, oriundos deste meio popular assediado e ameaçado, que questionam o valor das obras de arte, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, atuam, ou desejaríamos que atuassem, como mediadores entre classes sociais segregadas e isoladas.

Pedro de Llano Neira, 2025






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ENGLISH






Maurofilia

Maurophilia. Notes on Mauro Cerqueira’s Canções para um burro morto - Chants for a Dead Donkey, curated by João Terras at CIAJG – International Center of Art José de Guimarães.

I. Américo Castro said that, in America, they call “popular” a part of their Iberian heritage that was no more no less than remnants of the Arab and Jewish cultures which settled here. Arabic and Jewish, Muslim and Judaic, concern us because this we are too. This is not just our past - the various centuries these peoples spent on Iberian soil, the rapid conversion of the Hispano-Roman population to Islam or the spread of the Sepharad - the fact is that our continued cultural ties with the North of Africa and the Mediterranean binds us to these social and cultural architectures.

Right away, when Christian hegemony established itself, what was Arabic or Jewish sought refuge among the commonfolk, the lower classes. The famed Marranos (Iberian Jews) not only birthed European high culture — from Montaigne to Spinoza — but also, in their continued resistance from down below, without political recognition of any rights, are a rich seam of our popular culture. ¿Why does academia claim Seneca as our own, and then pay scant heed to Averroes or Maimonides? In his masterwork Orientalism, Edward Said still belittled the popular classes, the lowest of the low, for turning to this «exotic» legacy to legitimise their different customs, before those European cultures busy colonising us. But this was how they managed to save themselves before the dominant power base and classes from their own countries, and ours. This unique paradox has served to ensure that manners and customs that came to us via North African, Arabic or Semitic cultures, as well as Muslim or Hebrew religious traditions, survived over time. The popular classes laid claim to them, for example, before the alien gaze of English or French colonisers from learned Europe, and through them sought to vindicate their ways of life against the local bourgeoisie that exploited them, including the foppish aristocracy who wished to make sweeping changes to their work or leisure time.

II. Let’s turn to Maurophilia. Images of “the Moor”, subjugated or unchained, hew to archetype. What we cannot consider political in these images, can similarly be seen to belong to an imaginary we would call popular. What is seen as political shifts over time, due to the historical winds of change, and material means of production. But residua always remain behind, and this is what we call “popular.” It’s never been less than absurd to call “Orientalist” a Granadan artist who paints the Alhambra. An Englishman or Frenchman might delight in the exotic (sic), but in this case this scattered Arabic or Jewishness we call our own. Maurophilia is, also, a historical totem. We indeed, «are Moors», as Peña Wagneriana sang.

What makes us this? The Arab bazaars and Magrebe street markets, Lebanese restaurants, Turkish Shawarma cafés, Pakistani corner shops, nothing could be more ridiculous than calling all these immigrant cultures «Orientalist». If capitalism has a human face, then it has to be here. A shop, father figure or street market able to dismantle the patriarchy. If the origins of capitalism began in the markets of Mediterranean ports, then there too can it end. The findings of Verónica Gago in Neoliberalism from Below: Popular Pragmatics and Baroque Economies make plain these demarcations and these powers on the edges of which the popular becomes political. From down there, a commoners’ economy is possible which, alongside popular culture, can face up to big business and machinations of state. Charity, something our Catholic practices hold dear, without a doubt owes this almost in its entirety to its Muslim heritage.

Let’s dwell further on this. How is it that Islam, traditionally seen as something old world, was the first to install this taste for excess that our modern mall culture holds so dear? Lazy criticisms of capitalist, and socialist economics persist without understanding the difference lies in the absolute separation between the economy and our way of life.

Popular wisdom holds that where wealth accumulates, everything comes at a cost. Financial capitalism is, more than anything else, an abstraction of abundance and its phantasmal regulation. To the savage mind, the merchandise can be touched. «We give credit here». It is a fact that «financier» comes from «fe», «fides», «pistis». What Islam does is protect one religion from another. Capitalism behaves like a religion. Because it is one.

III. The tension between the popular imagination of the Magrebe migrants, for example, and the systems of repression and co-option of the countries that receive them is unprecedented in an economy that considers itself market-driven. The work done by those new arrivals, once commodified, is exploited by the dominant social groups of the host countries in an effort to limit and dock them of their rights. We call “popular” this surplus of imagination which, in a show of resistance, arises from the confrontation between the same modus operandi that the law keeps far apart. And this very same imagination ends up commodified. The surfeit of visual eye candy in Chinese or South Asian shops perpetuates itself in this cycle of aggressive capitalism.

What we call Arab, or Muslim — what is obviously a far more complex legacy — cannot continue to be demonised according to this friend or foe dichotomy. The Arab is our friend, end of story. European philosophy wouldn’t be what it is today without Averroes’ bountiful legacy. And what’s more, however contradictory it may seem coming from an Aniconic culture, our dialectic conception of image would make little sense if it weren’t for the philosophy of Averroes on what images are. And then there is love, at least European courtly love, which wouldn’t be possible without Arab mysticism, and Sufi literature. How we perceive money, art and love is firmly embroiled in popular ritual in a way which often surpasses bien-pensant, patriarchal European notions. Being intellectually open to such a possibility, now counter to Averroes, situating this imagination on earth and not in heaven.

IV. The word stereotype is a curious one. Etymologically, it means «diversification» —its root, «stereo» — only to have become «caricature», or to put it another way, «a pejorative fixation on something». In the construction of stereotypes, mediums of communication play an essential role. In fact, it is the printing press that led to such idées fixes. Anthologies such as Los españoles pintados por sí mismos (The Spanish in their Own Words) — and before this we were familiar with the French and English in their own words — mass produced types and stereotypes. In such portraits, popular imaginaries sneak in, often in spurious ways. Which is also what happens in the “exotic” romanticisation of the Moor. The popular is a kind of residuum, a background noise which tampers with hegemonic mediums of communication.

Take the idea of the «crusade», for example. Since the medieval christening of the other as infidel, violence has been instrumental in the definition of the popular. In many ways the vanquished build their residual world view based on what we would call a popular mindset. Also, consequently, the culture wars play an important part in the definition of the popular, albeit among politically hegemonic groups. The contradiction therein does not affect those represented any less. A case in point is the left’s stereotypical portrayal of the Moor in the course of our civil war, when there were Moroccan nationals fighting alongside Africanist general Francisco Franco, during the coup d’état. No one should assume that imaginaries arise without their teething troubles. The recourse to imagination is automatically subject to political debate.

Or the figure of the «extremist-to-be», yet another example. Representation in the popular imagination is no less of an abstraction. It is prone to the elements, to atmospheric conditions, to “arabesques”, which set themselves out like landscapes in the popular imagination. The Shiite terrorist, the jihadist, sleeper cells, the Isis hordes and the Islamic State, all these armies of nihilists, reminiscent of the fear of anarchistic terrorism in the 19th century, are constructs in the popular imagination which take the place of monsters, dragons and big bad wolves of yore. The fable — something political correctness struggles to understand — is always an allegory of trauma and tragedy. An opportunity to speak the unspeakable, a popular corrective of the mystic.

As I said, we are «the Moor». Indeed, we are, and continue being Moorish. All that is pigeonholed as Arabic or Muslim, from disparate cultures, is something that fundamentally affects us, situates us, belongs to what, and where we are. Popular culture, from folk music tradition to commercial pop radio, constantly revisits our Moorish roots. The tourist’s gaze, to give an example, is a continuous reminder of who we are and where we are (from). This pornographic gringo gaze mollifies us and gets under our skins, because it contains a grain of truth. If the weight of history and geography weren’t enough, there’s also the weight shared with others. The poor understand better the plight of other poor folk. As the Agustín Parejo School collective said: «we are Moors, we are Black».

V. When we advocate for a better understanding of the Arab and Muslim world, as it stands and in the fullness of its global diversity, we are actually trying to know ourselves. Not our Pan-Atlantic, European or North American institutions’ understanding of what Arab, Moorish, or Muslim means, but rather how they know and express themselves, how they affirm and deny themselves, what dialects cross their paths. The knowledge Catherine David had to share in her Contemporary Arab Representations project had as much to do with that “other” voice and not just serve as a reflection of our academic, historical and scientific mirrors. To understand this imaginary of the popular here, in the Southern climes of the Iberian Peninsula, then we must be aware of how it unfurls in Egypt, Lebanon, Iraq and Iran. Our Moroccan, Saharan, Algerian, Berber, Mauritanian or Tunisian neighbours share cultural common ground with us, and a myriad of constellations of the imagination.

We’d do well, for example, to think how they themselves have reacted to the cycle of colonial exploitation, the struggles we call the likes of popular to subaltern. We cannot continue to believe, in these times of photographic record, of cinema, and audiovisual media — why have Turkish soap operas struck such a chord? — and social media, that anything Arabic or Muslim comes from an aniconic, anti-image culture. Sometimes, it suits us to consider Arab cultures haptic or melodic, as if there hadn’t always been a connection to the senses, as if it were possible to touch, or hear without seeing. For that matter, it’s high time we reconsider how images are perceived seen through the eyes of these cultures, these worlds, the noise informing the images produced there, that are produced on top of/in response to our images. Just as so happens in mediated (re)production — gravure, photography, film, and so on — the popular is seen as background noise. This noise is, therefore, the worked-up sketch, the bulk of images, what we see here, the breaking of scribbled line, what we call popular. This aggressiveness of stroke, most certainly, is fruit of technique, a knee-jerk response to the natural production of images. Reproduction facing off against production, we might say. Which is exactly why the popular, is often, the result of tensions, violently inherent in matters of representation.

It can’t be seen as a coincidence that the Arab-Israeli conflict, the bloodiest in these parts since the Second World War, also happens to be a civil war between the Jewish and Muslim cultures that spur us on, propping us up from below. From the territorial demands of the State of Isreal to the recent massacres in Gaza. It’s impossible to think of these conflicts, without remembering the expulsion of the Jews from the kingdom of Spain and, prior to that, the bloody Muslim conquests which made the Iberian Peninsula what it is today. When we speak of a culture war, it is not in the banal sense that is prevalent today, that we relate to any ideological conflict, but in the understanding of culture as a culture of war. There is no testament to culture that isn’t also testament to act of barbarism. And yet popular culture, as we described above, a culture of the vanquished, the defeated, as a culture of resistance for distinct diasporas, ought to know whose side it’s on.

One last word on «arabesque», and yet another platitude. The violence of the arabesque, as Alain Robbe-Grillet made explicit in Jealousy. The appeal of the popular decorative space has a scopic purpose we often overlook. But, in general, what the popular has to teach us — as opposed to the naif, primitivist front presented for our benefit, or to put it another way, its domesticated version — is an arabesque vision, complex, wide-ranging, outside the norm, oblivious to the dialectics of the image, a gaze that is an exercise in stealth. When Agustín García Calvo spoke of the popular as what lurks beneath, he was also speaking of entrapment, the surprise attack which from nowhere ambushes us by surprise and forces us to look.

These black paintings by Mauro Cerqueira are an arabesque. What we see, and sees us. They are also self-portraits. Mirrors, obviously. And the chains too. The recourse to tar. Black, arabesque mirrors. Serious matters. «Mauro» means exactly that, obscure, black, Moorish. After the Greek, came Latin and from there all the regions from Magreb to Mauritania were mapped out. What these self-portraits face, and confront us with. Black paintings, black squares. We see Goya there, and Malevich, drawn in by arabesques. Their glittery sheen, are glances. Mauro looking and Mauro letting us look. Compressed matter. Absolute black, absorber of light. No need to buy, patent or market a new pigment to achieve absolute black. The unfolding portrait, the Moorish self-portrait. Juan de Pareja also springs to mind, Velázquez’ famous portrait, the mourisco painter, the black painter, the freed slave. The negro of the Kaaba, the stone meteorite. «Somos moros, estamos negros».

Ángel González García, Spanish art historian, detected, many years before X-ray analysis confirmed as much, the arabesque in Malevitch’s Black Square. For maestro González García, Malevitch was simply making reference to Alphonse Allais.: «Combat de nègres dans une cave pendant la nuit». When an X-ray of the first Supremacist Black Square was taken, there also appeared the inscription in Russian. An arabesque. More a case of ‘pataphysics than theophysics, then. The contorted cave dance of Aby Warburg’s Moor. All these twists and turns beneath the black square that was actually a self-portrait. Malevich wanted to take it to the grave. His Kaaba. The black veil covering the image of Christ in Orthodox religion. An Orientalist mirror? Most certainly. What mirrors reflect back at us is not our image but the history of our image. Capable of dense, vegetal foliage, florid decoration. We are made of this.

No, the Moor is not someone else. It is us. It is the history of how nations such as Portugal or Spain have conspired against the Moor, hiding him away, blanketing in colour the black that we are made of. The Moor is from before the Arab, even. The Moor is an uninterrupted Africanness. Africa begins in the Pyrenees. At the stroke of a pen, we were espunged from the political history of Europe. An end-of-the-century lagging behind, because in the end we are Moors. Is this not ridiculous? What is spat on the face of the mirror, in these self-portraits of Mauro on Moor, Moor on Mauro. Black on black. Mirrors of ink. A blackness of written intensity. A palimpsest. So much spilt ink till all is black. Written in arabesque. They who can see inside themselves. Somos «mauros», estamos negros.

VII. This could be seen as a journey travelling back in time. When Mauro Cerqueira and Babi Badalov – yet another double entendre, baby, Babi, born Soviet in Azerbaijan, Russian, Azerbaijani, Orthodox, Muslim – go to Morocco, they are not travelling through space, but time. Mauro, in Cançoes para um burro morto, roams freely over the Portugal of his infancy. The world it represents, that he sees there, and depicts. What’s to eat, what’s heard. The sounds of his infancy, of a city – Porto – and a Portugal that no longer exists in Portugal. A Moorish Portugal that no longer exists, portrayed in film. This is no voyage south but to when he was six years old. When Portugal was six, and so was Mauro. A Portugal mouro.

Let’s turn to its music. Nathaniel Mackey refers to it in Cante moro, the poetry of flamenco, of Federico García Lorca. Of Lorca’s strong identification with the Moor, the Jew, the Romany, with all who were persecuted. All those without political representation, now or never. Its casting out, of flamenco, the cantaor, the torero. Fado is not to Mauro Cerqueira’s taste. Mauro Cerqueira has had to grit his teeth and bear the modernisation of fado, and its Europeanisation. But when we hear the songs of the aljaima,, the calls to prayer from the mosque tower, when we hear songs of the gnawas booming from passing cars, it is fado we hear too. What Mauro seeks are these sounds from his childhood that were yet to be called fados. The singing of peoples. Mackey says. «The title “Cante Moro” goes back to a recording which came out twenty-five years ago, a recording by Manitas de Plata, probably the flamenco musician best known to listeners in the U.S. at that time, At one point during one of the pieces on the album, “Moritas Moras,” after the opening run of singing by José Reyes, a member of the group says, “Eso es cante moro,” which means “That’s Moorish singing. ” Calling deep song cante moro summons the past rule and continuing cultural presence of the Moors in Spain; it acknowledges the hybrid, heterogeneous roots not only of cante jondo but of Spanish culture generally, of, in fact, culture, collective poesis, generally. A Gypsy doing so, as in this instance, allies outcast orders, acknowledging hybridity and heterogeneity to entwine the heterodox as well—heterodox Gypsy, heterodox Moor, Cante moro bespeaks the presence and persistence of the otherwise excluded, the otherwise expelled.»

Just to make matters clear, José Reyes and Manitas de Plata are foster-parents of the Gipsy Kings, los gitanos Reyes. Nothing pure, nothing canonical, kings and princes from a humble aristocracy. The glitter of gold, the sheen of the metal chain. The octopus worn on the lapel, the “pulpo de Pericón de Cádiz” pin, that trawled the bottom of the ocean of the cove beach, in search of all that glittered. The same fascination shared by boys and girls for anything shiny that caught their eye. That same saudade, that nostalgia. The childhood that comes flooding back is no ethnographical or Orientlist paradise, it is the paradise of our infancy. This is a voyage to the past. It is to this I am referring when I, and they, say: «¡somos moros, estamos negros!». This film by Mauro and Badalov wards off any accusations of transcendentalism, or Sufi illusionism, or signs of any recourse to puffy clouds of hashish, precisely for not being afraid of childhood and its fun and games. Verses from the Quran appear in burnished gold leaf, defiantly cheesy, camp or even kitsch, name your pet hate. The savagery of the dead donkey -the rotting donkey carcasses of Buñuel, Dalí and Lorca- entrails ripped out by dogs is a scene we can’t help but note, or feel, the fact that it is a small boy who looks on. Or to put it more succinctly, it is rather our own childhood looking on. A sight that not only takes us back to the past, but which comes from the past also.

«Ya se murió el burro de la tía vinagre ya se lo llevó dios de esta vida miserable, que tururú, que tururú». (loosely: “Aunty Vinegar’s donkey is dead, God has taken him this miserable life, tururú, tururú”. This was Federico García Lorca’s favourite nursery rhyme, as his niece Laura mentioned on occasion. This same donkey is found, torn apart and scattered over the southern trails, by Cerqueira and Baby. These two, the Moro and the Niño, whose adventures swarm across the screen and are reflected in the mirrored surfaces of the black squares, in the glittering chains, in the thick, resplandescent tar of the paintings, kneaded as if it were earth.

Moro and Niño. Baby and Moor. Here, come sit! Perhaps if we now peruse these scribbles, after having seen the exhibition, and the film, we’ll be able to understand them a little better.

Pedro G. Romero
Barcelona-Sevilha
17 de abril de 2025






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Mauro Cerqueira: elegies in wax and tar

The streets of the city of Porto have always been a very important presence in the work of Mauro Cerqueira, whether it be directly or indirectly. The book Caldeireiros, published in 2012, made this abundantly clear . But the relationship the artist has with the city began to undergo a shift not long after, due to the seismic changes Porto would experience from around 2014 onwards, with the impacts of real estate, tourism and political decision-making. Since then, the city has radically transformed. From being a city in crisis, it has become a sought-after destination for international investors. These changes have affected, displaced and hurt the working classes who were the protagonists in the first phase of his work, documented in Caldeireiros.

This publication is the first monograph on his art production since then and is a showcase for a more recent body of work. The differences are there for all to see; from a practice founded on performance and installation (2006-2014), we have transitioned to another which focuses on the autonomous object (2016-2025), in an original, and innovative interpretation of the pictorial medium which we shall proceed to discuss. In fact, one might be tempted to argue that a parallel can be drawn between the contraction of the public space the city has endured during this period (both literally and figuratively) and the recourse to painting, as a makeshift shelter or autonomous space in which he can continue exploring the same themes and values as before (humble materials, popular storytelling both great and small, relations with the cityscape), at a moment in which freedom of movement and action in the streets of Porto, of a kind clearly depicted in certain works in the early years, has been limited and restricted.

Of course, not all changes are as drastic or absolute as those I set out in the previous paragraph. It is true that in Cerqueira’s work many constants have remained, but, occasionally, variances such as these help to understand the development of the artist. Some of these constants include, for example, a persistent interdisciplinarity (Cerqueira continues to work in a range of mediums all at once and, in this regard, it is fascinating to behold how he has recently incorporated music), his critical distance to the medium of painting that is expressed in this new series, as well as the recourse to narrative in all his work and which appears in all its splendour in the videos O suor da noite/The Night Sweat (2022) and Amazigh – Tecer estradas a caminhos/Weaving Paths from Roads (2025). This approach is characteristic of an artistic project in which abstraction harmoniously coexists alongside the discursive. The exhibition at CIAJG, curated by João Terras, is based on this dialectic and this text shall focus in particular on the more abstract elements.

The series of Espelhos [Mirrors] first emerged in 2016 and consists of works which have as common denominator their medium, the mirror, on the one hand, and on the other, a recourse to the same process; an encaustic painting technique made using household candlewax and pigments. With some slight variations, all the works in this series share the same measurements, 202 by 133 cm. There is a precedent in the series Jóias [Jewels] from 2013 and 2014, which consisted of small mirrors measuring 20 by 20 cm, with cut-out metal letterpress plates glued on the surface. Encaustic is a technique that goes back to ancient times, but which has been revisited by contemporary artists; one of the most well-known being Jasper Johns, in his series of Flags, from the 1950s. Encaustic is where wax is used to bind pigment to dense, creamy effect. Traditionally, it was applied with either a brush or spatula, but Cerqueira prefers to do so directly, building up the image through an accumulation of drops, like hot rain, dark and persistent, in the fleeting instant between liquid and solid matter, resulting in bubbling, bulging and translucent surfaces (it being the case that the motifs in this series are rough-hewn, sinuous and geometric figures that are well suited to such an immediacy of stroke). They could be swollen skins perhaps, clinging to the glass, which end up reminding us of maltreated bodies, abject and disjointed, that blur with our own reflections. It was by no means irrelevant that one of the first ever wax pieces, O nariz/The Nose (2017), incorporated the form of a nose reminiscent of a religious ex-voto.

The first time we saw the Espelhos series was the exhibition Dripping Wax at the Heinrich Ehrhardt gallery, Madrid, in 2017. Other occasions include the exhibitions Condo London (The Approach, London, 2018) and Desenganar (Galería Nuno Centeno, Porto, 2019). At each moment, Cerqueira has experimented with different colour textures and with the introduction of objects (phone cases) but the general schematic quality of the image has remained and is here in Guimarães enhanced by the use of imposing black tones. The main novelty, on this occasion, is the way the works are shown, spotlit in a room in semidarkness, evoking an atmosphere both introspective and ceremonial. Accordingly, the mirrors reflect their contents upon the floor, in many cases composed of decorative plant-like motifs which might remind us of Islamic architecture.

Spanish critic Javier Hontoria in 2016 wrote, on the apparent abstract relationship between these works and their surroundings «These are powerful yet disquieting images of ourselves. Looking at the works hirsute surfaces […] seems painful, and viewers´ reflections are entangled in dense colorful wax drips. […] If these light sources suggest both enlightenment and mourning, it is the latter governing the show´s atmosphere. […] This is all about us and our role in the entropic forces consuming our cities».

The second series presented in Cançoes para um burro morto [Songs for a Dead Donkey] is that of the Pinturas negras [Black Paintings]. The first works were created in 2019 and, in some respects – such as in the interactional critique of the pictorial medium and abstraction—seem to reiterate similar concerns to those of the previous series. Their measurements are slightly greater, 202 by 160 centimetres, although there are other formats both greater and smaller. The chosen medium in this case is canvas, on which first a layer of tar is applied which serves as a background for compositions consisting of objects found on the black market or salvaged from our waste. The process is similar to what came before in the sense that the tar also needs heat to melt the paste before applying it to the canvas. Cerqueira works this black, opaque surface, quite the opposite of the playful reflections in the mirror, with aggressively-applied scratches, gouge marks, incisions and lines which reveal the white underneath, like a glimmer of light which tries to emerge from the darkness.

Ever since the first showing of these works in 2022, at the Nuno Centeno gallery, the Pinturas negras have incorporated all kinds of dangling objects such as chains, necklaces, small trinkets, pieces of metal, rings, phone cases, medals, crockery, fasteners, padlocks and even a radio set, some of which can appear deliberately kitsch and crude. Between the first works in the series and then these, we can see how the presence and impact of these works or figures have increased. We see small metal bits and pieces (for the most part, from items of furniture) which lend a three-dimensional quality, seemingly looming outwards and which deepen the impression that these objects are not authentic paintings, but rather something more hybrid in nature. Paradoxically, this impression on second glance is undermined, when we begin to make out vaguely figurative or representational elements in some of these compositions, such as tear-stained faces (a recurring theme in Cerqueira’s oeuvre; as in the case of the wax droplets from the mirror series, or the metaphorical torrential rain of the video Soltar a cadeia [Break the Chain], 2021), nestling among metal chains and plastic fasteners. This figurative playfulness, already suggested by the types of objects incorporated, or by the references intimated by the images, detracts from the seriousness of the work and introduces a touch of humour.

Wax and tar are materials once found in homes in the older working-class neighbourhoods in the centre of Porto, which have since been gentrified in the last decade. Wax was used to illuminate interiors – to put it plainly, in the drug-infested squats, and tar was used as a coating to insulate roofs. One offered light and the other protection against the elements. Their presence in the most recent series of works by Mauro Cerqueira have an elegiac quality, representing as they do a long-gone human community, in danger of disappearing altogether. A lament, or perhaps another word which has fallen out of use somewhat in our postmodern societies; a kind of mourning, wounded and tear-drenched, serving as memory of time lost, forgotten; less and less evident, ghostly. In shorts, relatively abstract, just like his work.

Finally, wax and tar are materials whose use the academy frowns upon, reminding us of the beleaguered working-class communities, that calls into question the value of works of art, which paradoxically serve, or so it is wished, as mediators between segregated, and isolated, social classes.

Pedro de Llano Neira, 2025