CICATRIZ

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







PARAÍSO

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







ENCANTADA

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







PERDIÇÃO

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







ROULETTE

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







DEPENDÊNCIA

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







BORBOLETAS

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







ESPIRAL

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019







DESENGANAR

Pigmento e cera s/ espelho | Wax and pigment on mirror

205x135cm, 2019





























#HORNYCHAIN

Corno e correntes | Horn and metal chain

298x35cm, 2019







AFOGADO

Técnica mista | Mix media

87x58X7cm, 2019















#CACHIMBOEMLÍNGUACORTADA

Técnica mista s/ espelho | Mix media on mirror

85x55,5cm, 2019











#PUNKDERRETIDOVÓMITO

Óculos de sol, correntes, pigmento e cera s/ espelho | Sunglasses, metal chain, wax and pigment on mirror

43x43cm, 2019























FRAGMENTOS - RETIRO DOS CARVALHOS

Fotografias s/ papel | Photographs on paper

1 x (42x32cm) + 4 x (32x24,5cm) Total: 42x200cm, 2015-2019











ACORDAR A SERPENTE

Pele de cobra e jante | Snake skin and tire rim

225x36cm, 2019











#CASASNUMBECOMALCHEIROSO

Técnica mista | Mix media

70x50x30cm, 2019







VIAGEM DOS MORTOS

Mala, vidros e ossos | Suitcase, mirror pieces and bones

135x125x20cm, 2019







#DIANANATVEMDVD

Técnica mista | Mix media

66,5X65cm, 2019







#APOCALIPSEPICAPAU

DVDs e espelhos s/ mármore | Mix media

80x60cm, 2018











Trânsito e tráfico. A vida na arte.

São muitos os exemplos, no contexto da história da arte moderna, do retrato expandido de uma determinada vivência social que fica de tal forma plasmada na obra dos artistas que essa realidade irrompe como verdade totalizante, pelo menos no que se afirma como imaginário visual recorrente e referencial. Dos lânguidos passeios e piqueniques de domingo dos impressionistas, passando pelo frenesim eletrizante das noites berlinenses da Neue Sachlichkeit, da fotografia da grande depressão americana de Walker Evans até à intimidade desviante de Nan Goldin, da sociedade segregacionista de David Goldblatt à Europa de Paulo Nozolino, na sua deriva de desmemoriação.

A imersão num contexto pode resultar num exercício de observação privilegiado, ainda que eticamente não obrigatório. No entanto, a proximidade com o passar do tempo específico a um território, com os sons, os cheiros, as dinâmicas de interação pessoais, a apreensão de regras e códigos próprios acaba por determinar a possibilidade de análise e transformação da matéria vivida com maior propriedade. Nestes casos, a criação artística é o limite à verdade. A distância do observado consuma-se na desnecessidade documental.

Quando em 2008 Mauro Cerqueira e André Sousa decidiram abrir um espaço na Rua dos Caldeireiros, no centro histórico do Porto, esta era ainda uma artéria que vivia no longo estertor de uma confluência de pequenos negócios, indústrias e habitação (na maior parte dos casos de uma população envelhecida ou socialmente fragilizada). Uma Certa Falta de Coerência, nome dado ao espaço, não veio impor-se como elemento disruptivo de uma elite intelectual ou artística na degradada realidade local, antes aproveitou, tal como as evidências de decadência do próprio espaço físico, as circunstâncias específicas para modelar um plano de convivência estruturante. O facto de Mauro Cerqueira ter decidido habitar e estabelecer o seu atelier na rua veio reforçar esse sentimento de comunidade.

Quem, como eu, só ocasionalmente passava nos Caldeireiros lembra-se como nos idos anos noventa do século passado, no boom menos escondido do consumo de heroína, os junkies desciam (em passo leve) e subiam (a custo) a íngreme artéria. Era uma imagem impressionante, onde esses espectros desmaterializados conviviam com uma crescente degradação económica e social. No entanto, a comunidade ia resistindo, alguns negócios quase centenários persistiam, aí ia propositadamente muita gente à famosa Adega Vila Meã, monumento à boa comida tradicional.

Mauro Cerqueira travou conhecimento com muitos personagens locais, percebeu como a comunidade se estava a transformar. A partir de relatos, histórias e vivências começou a erigir uma narrativa visual e formal que condensa com particular energia um estar no tempo sem capacidade de transformação. Nem ele, nem os seus vizinhos, amigos e restante população poderiam imaginar o que sucederia nos anos sequentes. A gentrificação avassaladora só não é total por teimosia de alguns moradores, pelos tais espectros (menos) que por aí circulam, pelo cheiro a mijo (agora mais cosmopolita, com certeza) que ainda povoa becos transversais em ondas pestilentas. Contou-me o Mauro que, hoje em dia, tem dificuldade em sair de casa sem ser apanhado numa ocasional fotografia de telemóvel. Eu próprio testemunhei esse fenómeno enquanto esperava que ele me abrisse a porta: numa esquina grupos de turistas fotografavam compulsivamente a rua e eu fiquei, inadvertidamente, a fazer parte do cenário.

Cidade – cenário. É isso. Este é o pior desígnio possível para uma cidade como a nossa. Olhando à volta são inúmeros os edifícios que num assomo ridículo de má consciência são esventrados até ao tutano, mantendo-se a traça de uma pobre fachada que é complementada com toneladas de Pladur e Ikea.

Não se pense que aqui se ensaia qualquer tipo de discurso moralista. A inevitabilidade do fenómeno é consensual, os modos de reagir à coisa poderão não o ser. Mauro Cerqueira também não advoga qualquer tipo de superioridade moral, ética ou intelectual sobre aqueles com quem trabalha e referencia. Constata. Dá voz (por vezes). Mas, acima de tudo, irrompe no ainda demasiado complacente e conservador contexto do público das artes plásticas nacionais com descomprometida energia disruptiva. No coração da exposição que agora se apresenta, uma série de obras de grande formato referem a tradição da grande pintura abstrata da segunda metade do século vinte. Ao longe e nas imaculadas paredes brancas da galeria, que nesta nova sede ganhou espessura parainstitucional, alinham-se obras que evidenciam formas negras que desenham círculos, formas serpenteantes ou geométricas. Quando nos aproximamos percebemos que o fundo não é tela, mas sim um espelho. Vemos que, em muitas delas, são aplicados objetos sobre essa superfície especular: grades, conchas e partes de telemóveis, entre outros. Surpreendentemente, as manchas pretas não são criadas com tinta, mas desenhadas com cera queimada.

A antítese da luz: o negro, aqui reiterado enquanto resquício de um branco de outrora, agora queimado e abandonado num recanto claustrofóbico, húmido e sujo. O espaço da viagem do Grande Dragão, metafísica dos dependentes. Mas cera branca, também, da fé dos ex-votos: a metafísica dos crentes. Intrigante, a Capela de Nossa Senhora da Silva na Rua dos Caldeireiros é uma imagem da crença observante dos transeuntes em viagem opiácea. É nesses extremos que estas obras se ancoram. Trânsito espiritual e tráfico material. O espelho é uma superfície branca para a vaidade alheia, uma testemunha deste estranho e ambíguo ziguezague. Não consigo deixar de imaginar as centenas de selfies que se vão engendrar nestas obras. Narciso não ao espelho, antes numa vertigem que, de modo mais ou menos tímido, tenta submergir enquanto imagem reificada do espectador que encontra o plano perfeito entre a sujidade da arte e o resplandecer aditivo do espelho.

Como referi anteriormente, o artista manipula com particular perversidade a apetência subliminar do espetador pela bela forma e a consequente descida à rugosidade do real transfigurado. Um mundo algures entre a Quinta Avenida e os Caldeireiros. Bravo.

São, contudo, muito mais abrangentes as referências e apropriações que Mauro Cerqueira nos propõe neste Desenganar (título que deu à exposição). Desde materiais trazidos da sua experiência na residência Robert Rauschenberg em Captiva na Flórida em 2013, até memorabilia de referências juvenis de bandas de black metal como os Dark Funeral, o que aqui prevalece é a ideia de memória como origem de um território formal e socialmente desregrado que usa o real como âncora de deslizamentos percetivos de alcance neorrealista, na melhor aceção do termo. Sim, feios, porcos e maus. Pode ser. Mas não será ainda mais feia, porca e má a conjuntura histórica que os tenta tirar do ponto de vista? Olhar é um ato de edição crítica da realidade. Olhar o mundo para além do mundo estável é desdobrar criticamente a nossa capacidade de pensar e agir. Isto é o que Mauro Cerqueira nos propõe.

Que mais pode a arte?

Miguel von Hafe Pérez











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